


Olá boa noite!
Vou tentar contar-vos quem fui até há bem pouco tempo, mais concretamente, ate Fevereiro de 2006.
Desculpe, não ouvi!?
Como é que me chamo? Mais à frente eu digo, agora o que interessa é que o meu nome é “igual” ao de tantas outras transexuais e prostitutas, que todos as noites vão calcorreando os passeios e beiras de estrada, vendendo serviços sexuais, fazendo os outros felizes, por breves instantes é claro, enquanto ganhamos a vida.
O meu nome é igual ao de tantas outras que partiram deste mundo, e de quem ninguém quis saber.
Bom, mas, passemos à frente! Quem fui?
Fui uma mulher linda, uma mulher que veio do Brasil para Portugal, para a Europa. Aqui fui mulher, fui gente, fui estrela, á pois é, fiz espectáculos que ainda hoje lembro, e sou lembrada pelas amizades que fiz nesse tempo.
Sempre amei intensamente, mas nunca fui amada. Restou-me os meus Yorkshire, a carolina, linda, foi atropelada por um carro acelerado, e o Leonardo, amigo do meu coração e de uma vida, a velhice levou-o. A natureza levou-o e com ele levou a minha vontade de viver, o meu equilíbrio, o meu companheiro de sempre partiu, e com ele partiu tudo que me restava. Sabem todos nós, seres humanos, somos mais ou menos permeáveis a este ou aquele químico, e eu descobri que o meu corpo nunca devia ter experimentado a droga.
O problema foi a primeira dose!
A casa vazia, sem os meus amiguinhos de pelo, o coração negro, vazio, envolvido por um silencio ensurdecedor levou-me nesse mundo obscuro do vicio.
Perdi-me, e não encontrei o caminho de volta. Ingressei no caminho para a morte.
Perdi-me e perdi o respeito por mim e pela vida, fugi das minhas amigas, afundei-me, sozinha, como na verdade sempre estive, embora rodeada de amigas, o Amor de alguém que connosco partilha o bom e o mau, cada momento, que connosco constrói uma vida a dois, esse Amor, esse, nunca tive.
No início deste ano eu estava muito mal. Debilitada física e psicologicamente, a droga, a sida, e todas as outras doenças oportunistas que tal como as pessoas, nos calcam quando estamos indefesas, deixaram-me num estado muito débil. Ganhava a vida, ou que dela restava, para comer e para o vicio, prostituindo-me. Vivi o fim da minha vida como uma sem abrigo, num prédio abandonado, e por acabar. Várias vezes vinham uns putos, quase todos os dias, que me chamavam nomes, sabiam que já tinha sido homem. Cheguei a ir á comunhão de um deles, eu conhecia-os. Mas a Fevereiro deste ano, um dia eles vieram, mas traziam um olhar diferente.
Chamaram-me nomes como de costume, mas foram-se aproximando cada vez mais, atiraram uma pedra, e depois outra, e outra, outra, e mais outra, … já bem perto de mim e antes que pudesse fazer algo, e como poderia de tão fraca que estava, pontapearam-me, deram-me socos, cai e amarraram-me os pés e as mãos, amordaçaram-me, e continuaram com os socos e os pontapés, … deixaram-me ali no chão e foram-se.
Que noite tão fria, e as dores que sentia, como foram eles capazes de fazer aquilo?
No dia seguinte voltaram, e ali estava eu imóvel no mesmo sitio onde me tinham deixado, e recomeçaram tudo de novo, pontapearam-me, socaram-me, queimaram-me com cigarros, … estava tão fraca que nem conseguia gritar, os meus gritos eram interiores, silenciosos mas intensos. Mas um grito fez eco, um grito de agonia, … eles penetram-me o ânus com um pau, infringindo no meu débil corpo uma dor dilacerante. Nesses instantes os meus gritos silenciosos, intensos, agonizantes, transformaram-se numa súplica a Deus Pai para, que me leva-se naquele instante, não suportava mais tanta dor, pensava eu! A tortura física que eles me faziam sentir, deu lugar á tortura psicológica de saber a mulher linda e energética que fui, estava agora ali deitada naquele chão imundo amarrada e amordaçada, a ser espancada, dilacerada, por crianças com menos de 16 anos, e que eu ate os conhecia, ali estava eu sem poder fazer nada. Foram-se, mais uma vez deixaram-me ali estendida, moribunda, como um cão morto na berma da estrada. Voltaram pela terceira vez no dia seguinte, e ali estava eu á “espera” deles, como se dali pudesse sair!? Doente com todos males que já tinha antes, agora com três dias sem comer ou beber, espancada, violentada, dilacerada, três dias depois do inicio do fim.
Olharam-me assustados e na expectativa de esconder o que tinham feito pensaram em queimar-me, mas isso dava muito nas vistas, o fumo era o problema, então decidiram atirar-me para dentro de um fosso de água parada, pensaram que estava morta, e embora não faltasse muito para isso, atiraram-me ainda viva para a água. Amarrada como poderia eu tentar pela minha vida, então terminei o meu caminho para a morte afogando-me. Seja tive a morte das mortes, depois de três dias sem comer ou beber a ser espancada, depois de ser dilacerada, afogaram-me, …diz o povo que não tem morte mais horrenda que morrer afogada ou queimada, pois eu superei este dizer, tive a morte mais agonizantes e desesperadas que qualquer ser vivo pode ter. Sem forças ou condições para poder me agarrar a algo ou tentar nadar ali fiquei, ali morri.
Meu Deus, como sofri!
Mas sabem, a minha morte não foi em vão!
Neste país que me acolheu e naqueles por onde passei, e outros, as minhas amizades não deixaram que eu fosse mais um nome numa já longa lista. Reuniram-se em vigílias, enviaram protestos, reclamaram justiça, a minha morte deu luz ás transexuais que ninguém falava, que ninguém via, mas que muitos usavam. A minha morte tem hoje uma força única, na boca de cada um que me lembra, nas acções de cada grupo. Hoje sou lembrada, e comigo ou por mim todas as Gisbertas do mundo são mais visíveis.
Ah! Sim, o meu nome é, …GISBERTA.
Que saudades tenho de vós meus amigos!